Ponto de Vista: as manifestações

A filósofa Marilena Chauí fala sobre o clássico fenômeno objeto da psicologia social: “a classe média paulistana é um mistério. Convidam você para ir a casa deles, é bem recebido, fazem uma comida especial para você, te levam até a porta, oferecem carona etc. Mas basta dirigir um carro, entrar numa fila ou num espaço que deve ser compartilhado para se transformarem em bestas selvagens”.
Em debate na Faculdade de Ciências Sociais da USP sobre “A Ascensão Conservadora em São Paulo” a filósofa discorreu sobre o autoritarismo da sociedade brasileira que não se resume ao aparelho do Estado (a ditadura, por exemplo): está cristalizado em relações hierárquicas, verticais e oligárquicas onde as desigualdades são “naturalizadas”. A violência seria deslocada para o campo da criminalidade e delinquência. Mas em São Paulo teria ocorrido algo “sinistro”: ao receber o impulso neoliberal isso teria funcionado para a sociedade paulistana como “a mão e a luva, como a sopa no mel” porque “a característica mais impressionante do neoliberalismo é o encolhimento da esfera pública e o alargamento da privada”.
Essa análise é bastante prática no cenário atual: um país indignado, multidões nas ruas, muitos gritos, um pouco de circo, muitas bestas selvagens. Depois de décadas de conflitos políticos e lutas por direitos e ideais, as classes média e alta estão experimentando de modo bastante amador o gostinho de uma “revolução”. Vestidos de verde e amarelo eles têm um propósito: Fora Dilma, Fora PT. Muitos ainda gritam e manifestam-se em redes sociais com “chega de corrupção”, e ainda muitos outros usam do mesmo grito vestidos com uma camiseta da CBF, uma das instituições mais corruptas do Brasil. Levados pela emoção, bradam o hino nacional com fulgor, tiram fotos com policiais e dividem a Av. Paulista com um trio elétrico que reúne Silas Malafaia, Marco Feliciano e Jair Bolsonaro, mas declaram que não são a favor de nenhum partido. Perdoemos as tantas contradições, eles não têm experiência.          Perdoemos as ignorâncias, eles não tiveram acesso à educação muito menos aulas de história… Não, calma, isso eles tiveram, já que 77% dos manifestantes têm ensino superior. De fato, a situação do país está lastimável, e para os que pensam está desesperadora.

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